O ponto da discórdia: a papeleira Botnia-UPM e o Rio Uruguai

Desde sábado a ponte internacional San Martín está novamente aberta, depois de mais de três anos de bloqueio por parte de piqueteiros argentinos, organizados contra a produtora celulose Botnia-UPM. A indústia de origem filandesa fica às margens do rio Uruguai, que divide os dois países.

Estávamos coincidentemente indo para Fray Bentos, a cidade limítrofe por parte uruguaia, um dia antes da abertura do corte. Não poderíamos deixar de presenciar esse momento histórico: lá fomos nós haciendo dedo até o piquete, localizado há cerca de 12 km da ponte. Na verdade, acordamos bem cedo e para atravessar tudo a pé, como dois maratonistas.

No entanto, é proibido cruzar a fronteira sem seu carro, moto ou caminhão! Não se pode atravessar com veículo com tração a sangre, como dizem eles – pelas próprias pernas, no lombo de cavalos, bicicletas, skate, patinete, seja lá o que for. Não gostam de papeleiras, mas assim estimulam a produção de carros. Saudade do Chuí, onde basta atravessar uma rua e lá estamos nós em terras estrangeiras sem ninguém pra encher o saco.

Depois de duas caronas, chegamos. Nosso último motorista, acompanhado da esposa, queria cruzar o piquete às 10h, sendo que só iriam se abrir as porteiras às 13h. Uma senhora abriu a cancela, ele passou. Nos abanaram ternamente pela janela. Logo depois, outro piqueteiro se dirigiu indignado à senhora: “por que deixou os uruguaios passarem? Eles que esperem!”. E pronunciou a palavra “uruguaios” com um desdém que me embrulhou o estômago.

Para passar pela barreira dos manifestantes argentinos era necessário estar na listinha

Conflito entre manifestante e morador local

Sem dúvida, a polêmica da ponte ente Fray Bentos e Gualeguaychu virou uma questão de patriotismo. Quem vê os piqueteiros cantando o hino da argentina de punhos cerrados antes de iniciar o pronunciamento que abria a ponte percebe isso muito bem. Gritam “Argentina” com uma entonação que jamais vi alguém gritar “Brasil” em toda minha vida. Ainda não sei se acho isso bonito ou assustador. Tomara que uma temporada do outro lado do rio me esclareça as idéias.

A força dos hermanos

Bueno, logo após o pronunciamento, a via estava aberta, e a pequena multidão que se formou – cerca de 300 pessoas – foi se diluindo. Arrisco dizer que metade destes eram jornalistas. Talvez até mais da metade. A ponte ficará aberta por dois meses, os uruguaios dizem que não voltará a fechar, pois nem os argentinos agüentam mais o bloqueio. Os argentinos dizem que só vão fechar depois de ver o comprometimento uruguaio em expulsar Botnia-UPM. Quanto a nós, vamos atravessar e ir embora duma vez.

Multidão ansiosa

E enfim passa oficialmente o primeiro carro

Texto: Ale Lucchese

Fotos: Thais Brandão