Nas entrelinhas da América Latina

quarta-feira junho 30th, 2010

Trompetista do sinal vermelho

Pablo Mendoza tem 25 anos. É musico. Trompetista. Vive em Rosário,  distrito de Santa Fé, Argentina. Ele vê sua cidade, como tantas outras metrópoles latino-americanas, PERDER os espaços públicos para demonstrações de música e arte.  Pablo lamenta, mas nem por isso deixa de ir atrás de seus ouvintes.  E há quase cinco anos os encontra tocando seu trompete nos sinais vermelhos dos semáfaros.

Ele nos assegura que consegue receber em torno de R$ 25  por hora. Mas lembra: “a música demanda ENERGIA e TEMPO diferentes de outros trabalhos, não consigo ficar horas tocando”. Vai então ao semáfaro quando se sente disposto e quando precisa de dinheiro. É apaixonado por ska e fusion, e mantém uma banda chamada Christine Keeler. Do Brasil, lembra com carinho do grupo Black Rio, que muito já lhe alimentou a ALMA.

Nessas andanças, encontramos os mais variados MÚSICOS de rua: vocalistas que fugiram de seus coros, compositores de violão em punho, violinistas que conseguem tocar e manter o equilíbrio dentro de um ônibus lotado, e – é claro! – os onipresentes indígenas do altiplano com suas flautas e cordas. Mas essa foi a ÚNICA vez que conhecemos alguém que consegue exibir sua musicalidade no curto período entre um sinal amarelo e um verde.

Para conhecer melhor a banda de Pablo, clique aqui. E para ver o música NA RUA e em ação, assista o vídeo abaixo:

Trompetista do sinal vermelho (Rosario, Argentina) from Os Estrangeiros on Vimeo.

Fotos: Thais Brandão

Texto e vídeo: Ale Lucchese

sexta-feira junho 25th, 2010

Interior uruguaio – parte 2 de 2

Mercedes é a capital de Soriano, distrito uruguaio que faz fronteira com a Argentina e é banhado pelo rio Uruguai. Com pouco mais de 40 mil habitantes, é uma cidade limpa e organizada, que costuma receber turistas durante o verão em suas praias fluviais. As fotos ilustram a tranqüilo cotidiano que percebemos em todo o interior uruguaio.

Fotos: Thais Brandão

Texto: Alexandre Lucchese

quinta-feira junho 24th, 2010

diario.doc

A partir de hoje começo a publicar meu diário no blog http://diariopontodoc.wordpress.com . Não se trata de uma atualização em tempo real de nossa viagem. Ao contrário: todos as postagens são publicadas com dois meses de atraso em relação ao dia em que foram escritos. E todos os nomes de amigos, conhecidos, inimigos e outras pessoas de convivência são trocados por pseudônimos.

Por que então publicar? Por que escrever? Isso você descobre acessando o blog ou na F.A.Q. abaixo. Espero que curtam ler essa experiência tanto quanto eu estou curtindo escrevê-la. Buen provecho!

Texto: Alexandre Lucchese

quarta-feira junho 23rd, 2010

Interior uruguaio – parte 1 de 2

O Uruguai tem pouco mais de três milhões de habitantes, e metade destes vivem na sua capital, Montevideo. Viajar por esse país é se sentir livre e tranqüilo como um dos tantos cachorros vagabundos que encontramos em suas ruas. Em dois posts, Thais expõe a paz e o tédio sedutor do interior do Uruguai. Hoje, imagens do cotidiano de Castillos, cidade que possui em torno de sete mil habitantes, localizada a cerca de 200 km da capital uruguaia.

Mais fotos do interior uruguaio nesta sexta-feira.

Fotos: Thais Brandao

Texto: Alexandre Lucchese

segunda-feira junho 21st, 2010

Ao outro lado do rio

O ponto da discórdia: a papeleira Botnia-UPM e o Rio Uruguai

Desde sábado a ponte internacional San Martín está novamente aberta, depois de mais de três anos de bloqueio por parte de piqueteiros argentinos, organizados contra a produtora celulose Botnia-UPM. A indústia de origem filandesa fica às margens do rio Uruguai, que divide os dois países.

Estávamos coincidentemente indo para Fray Bentos, a cidade limítrofe por parte uruguaia, um dia antes da abertura do corte. Não poderíamos deixar de presenciar esse momento histórico: lá fomos nós haciendo dedo até o piquete, localizado há cerca de 12 km da ponte. Na verdade, acordamos bem cedo e para atravessar tudo a pé, como dois maratonistas.

No entanto, é proibido cruzar a fronteira sem seu carro, moto ou caminhão! Não se pode atravessar com veículo com tração a sangre, como dizem eles – pelas próprias pernas, no lombo de cavalos, bicicletas, skate, patinete, seja lá o que for. Não gostam de papeleiras, mas assim estimulam a produção de carros. Saudade do Chuí, onde basta atravessar uma rua e lá estamos nós em terras estrangeiras sem ninguém pra encher o saco.

Depois de duas caronas, chegamos. Nosso último motorista, acompanhado da esposa, queria cruzar o piquete às 10h, sendo que só iriam se abrir as porteiras às 13h. Uma senhora abriu a cancela, ele passou. Nos abanaram ternamente pela janela. Logo depois, outro piqueteiro se dirigiu indignado à senhora: “por que deixou os uruguaios passarem? Eles que esperem!”. E pronunciou a palavra “uruguaios” com um desdém que me embrulhou o estômago.

Para passar pela barreira dos manifestantes argentinos era necessário estar na listinha

Conflito entre manifestante e morador local

Sem dúvida, a polêmica da ponte ente Fray Bentos e Gualeguaychu virou uma questão de patriotismo. Quem vê os piqueteiros cantando o hino da argentina de punhos cerrados antes de iniciar o pronunciamento que abria a ponte percebe isso muito bem. Gritam “Argentina” com uma entonação que jamais vi alguém gritar “Brasil” em toda minha vida. Ainda não sei se acho isso bonito ou assustador. Tomara que uma temporada do outro lado do rio me esclareça as idéias.

A força dos hermanos

Bueno, logo após o pronunciamento, a via estava aberta, e a pequena multidão que se formou – cerca de 300 pessoas – foi se diluindo. Arrisco dizer que metade destes eram jornalistas. Talvez até mais da metade. A ponte ficará aberta por dois meses, os uruguaios dizem que não voltará a fechar, pois nem os argentinos agüentam mais o bloqueio. Os argentinos dizem que só vão fechar depois de ver o comprometimento uruguaio em expulsar Botnia-UPM. Quanto a nós, vamos atravessar e ir embora duma vez.

Multidão ansiosa

E enfim passa oficialmente o primeiro carro

Texto: Ale Lucchese

Fotos: Thais Brandão

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